Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2018
NOTICIANDO
Artigo: O viés negativo do radicalismo
19/07/2016

*Por: José Carlos de Oliveira Robaldo

De fato, o momento é fértil para reflexão. Os altos índices de preferências ao governo dos Estados Unidos apresentados nas pesquisas de intenção de votos em favor do candidato a presidente Ronald Trump e a recente vitória da retirada do Reino Unido da União Européia (e que já vem causando profundo arrependimento àqueles que embarcaram nessa idéia), ambos fomentados pelo xenofobismo que vem se acentuando tanto na Europa como nos Estados Unidos, revelam que o mundo está passando por momentos de perigoso extremismo.

A história é farta em demonstrar que o radicalismo político e social, seja ele de esquerda ou de direita, não interessa à humanidade. Mais prejudica do que ajuda.

O extremismo é uma forma de se visualizar parcialmente o objeto de conhecimento. É como se o mundo não fosse constituído de múltiplas facetas. É ignorar por completo a perspectiva pluralista das coisas, em especial do homem e de suas ideias.

O jargão “nós e eles”, muito utilizado na campanha da reeleição de Dilma, que se autoidentifica de esquerda, também pode ser usado, com o mesmo viés, pela direita radical. A verdade é privilégio do “nós”. Quem conhece e pode diagnosticar o desejo da humanidade e inclusive oferecer-lhe a solução justa e adequada somos “Nós”. “Eles”, ao contrário, são do mal, só querem a desgraça dos outros. Esse discurso é muito usado pela esquerda radical e nos últimos tempos também foi incorporado à cultura do radicalismo de direita.

Foi justamente o radicalismo nazista que levou Hitler ao cometimento de bárbaros crimes contra a humanidade (genocídio), conhecido por Holocausto e que vitimou cerca de seis milhões de judeus, o que maculou negativamente a história da primeira metade do século 20. 

O debate, inclusive ideológico, é salutar, porque é dos confrontos de ideias que surgem conclusões que podem ajudar a compreender melhor o mundo e torná-lo melhor em prol da sociedade como um todo. Não se nega que também se podem aproveitar iniciativas positivas pontuais de qualquer desses extremos, desde que não as radicalizem. A discussão polarizada, entretanto, em nada contribui em face das ideias preconcebidas. Ora, quem se dispõe a dialogar, não pode se intitular o dono da verdade.

O radical, seja de que lado for, em face da sua prepotência e arrogância, intitula-se o dono da verdade, como se fosse o único capaz de apresentar soluções, esquecendo-se do ensinamento de que “ninguém é dono de todo saber” (Humberto Queiroz). Ainda mais fazendo-se vistas grossas ao ensinamento do filósofo quando diz: “Não quero que pense como eu, só quero que pense”.

A corrupção, tema que vem cotidianamente ocupando espaço na imprensa e que, entre nós, se acentuou a partir do “Mensalão”, operação “Lava Jato”, “Custo Brasil”, “Boca Livre”, entre outras, acabou embaraçando a conceituação de “nós e eles”. Anteriormente “eles” é que eram corruptos. A ética e exemplo de políticos republicanos era “propriedade exclusiva do “nós”. 

Esse contexto todo comprova que as virtudes e os defeitos são uma “septicemia” que se estende a todos. Aquelas para o bem e estas para o mau.

É uma pena que o bom senso não prevaleça.

*José Carlos de Oliveira Robaldo é Procurador de Justiça aposentado. Advogado. Mestre em Direito Penal pela Universidade Estadual Paulista-UNESP. Professor universitário. E-mail jc.robaldo@terra.com.br


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